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O Palco da Hipocrisia: Enquanto Alto Alegre Lidera Piores Índices Infantis do Brasil, Gestão Municipal Ganha Assento de Honra em Evento do UNICEF.

  • Foto do escritor: Hermes Vissotto
    Hermes Vissotto
  • há 24 minutos
  • 2 min de leitura
Foto: TCE RR
Foto: TCE RR

BOA VISTA — Um contraste incômodo tomou conta da abertura do evento presencial de formação do Selo UNICEF sobre Equidade Étnico-Racial em Roraima. Enquanto dados estatísticos do IBGE e de órgãos federais confirmam que Alto Alegre ostenta os piores indicadores de vulnerabilidade infantil do país, o Secretário Municipal de Assuntos Indígenas do município, Romário Silva Duarte, participou da mesa e ocupou lugar de destaque na primeira fila do encontro.  

A presença em local de honra de um representante da gestão municipal de Alto Alegre em uma formação internacional voltada à proteção da infância e equidade racial acendeu o alerta sobre o abismo que separa as aparências em eventos institucionais da trágica realidade vivida pelas crianças no chão do município.


O Retrato Devastador que o Palco Não Mostra

Para entender a gravidade da contradição, basta cruzar os holofotes do evento com o raio-x social de Alto Alegre exposto pelos dados oficiais:

  • 1º Lugar Nacional em Crianças Sem Registro: Alto Alegre é o município brasileiro com a maior proporção de crianças de até 5 anos de idade sem certidão de nascimento no país: 37,8% do total. São milhares de crianças transformadas em "invisíveis civis", sem acesso garantido a vacinas, prontuários do SUS e matrículas escolares.

  • Campeão do Analfabetismo no Brasil: Segundo o Censo do IBGE, o município possui a maior taxa de analfabetismo do país (36,8%), número que salta para estarrecedores 64,3% entre a população indígena, o exato público que a secretaria municipal representada na primeira fila do evento deveria proteger e alfabetizar.

  • Epidemia de Desnutrição na TI Yanomami: Com parte expressiva de seu território inserida na Terra Indígena Yanomami, a infância em Alto Alegre lida com marcas crônicas de desnutrição proteico-calórica que afetam até 8 em cada 10 crianças menores de 5 anos em polos-base da região, como Surucucu.


O Descompasso do UNICEF em Roraima  

A cena de autoridades locais recebendo posição de destaque e visibilidade política em agendas da Organização das Nações Unidas (ONU) levanta um questionamento inevitável sobre os critérios de interlocução do UNICEF no estado:


Como uma agência internacional de defesa dos direitos da infância valida a posição de destaque para gestores de um município que coleciona o topo dos rankings de violação e negação de direitos básicos às suas próprias crianças?


O modelo de atuação do Selo UNICEF prevê a adesão dos municípios e a busca por melhorias progressivas. Contudo, a espetacularização e o oferecimento de vitrines institucionais a administrações que mantêm índices de calamidade social geram uma perigosa sensação de blindagem ou "maquiagem" política.  


Papel Aceita Tudo, A Realidade Não

Enquanto discursos sobre equidade étnico-racial e direitos humanos ecoam nas salas climatizadas de eventos em Boa Vista, as crianças indígenas e ribeirinhas de Alto Alegre continuam nascendo sem papel, crescendo sem escola e adoecendo sem assistência básica.


A presença de Romário Silva Duarte na primeira fila de um evento do UNICEF escancara a urgência de cobrar menos protocolos e mais entregas reais. A infância de Alto Alegre não precisa de assentos em auditórios, mas sim de certidões de nascimento, merenda no prato e lápis na mão.


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